19 de agosto de 2010

Todo jornalista deveria mudar radicalmente de atividade depois de dez anos de exercício profissional. Somente assim não correria o risco de se habituar ao papel de figurante do espetáculo patético encenado em redações por gente que se considera cem vezes mais importante do que realmente é.

Não existe cena tão risível quanto o desfile de vaidades desprovidas de qualquer fundamento. Em nenhuma outra profissão há um abismo tão gigantesco entre pretensão e realidade. Ninguém me contou; eu vi, com estes olhos que um dia o crematório de Golders Green há de comer: gente incapaz de pronunciar corretamente a palavra “gratuito”, gente que escreve exceção com dois “s”, gente que constrói frases como “para mim ver”, gente que acha que “sobrancelha” é “sombrancelha”, gente que jura que o substantivo óculos exige o artigo no singular, gente que comete pérolas como “fazem dez anos” – chorai, leitor, é esta a gente que, além de se julgar superior e competente, acha-se perfeitamente qualificada para descrever o que é que aconteceu ontem, o que acontece hoje, o que acontecerá amanhã, esta semana, este mês, este ano, no mundo. Quá, quá, quá.

Pior: é gente que, a sério, exige remuneração superior à de médicos, engenheiros, nutricionistas, agrônomos, veterinários, biólogos e garis. Pausa para risos incontroláveis da platéia. Quá, quá, quá. De novo: quá, quá, quá.

É como se um cirurgião perfeitamente incapaz de manusear o instrumento de trabalho – um bisturi – saísse da sala de operações arrotando grandeza depois de cometer barbeiragens inomináveis no corpo do paciente [...]

Do texto de Geneton Moraes Neto sobre as lições de jornalismo que aprendeu com Joel Silveira. Leitura obrigatória.

28 de julho de 2010

Pequeno recado para Felipe Massa e demais pilotos brasileiros que pretendem um dia ser respeitados como esportistas em um esporte que é até mesmo contestado como tal. Está a partir de 8:33.



E já que estamos aqui, por que não lhes mostrar a parte 2, não é mesmo? Pena que ainda não legendaram.



"Did you understand the message?".

14 de julho de 2010

[Coluna Pit Stop de hoje do Diário de Taubaté]

“Nada mal para um segundo piloto”
Red Bull abraça Vettel e Webber declara guerra


Webber e Vettel se cumprimentam
após GP da Inglaterra: clima ruim é visível

Uma frase desagradável estava entalada na minha garganta desde a primeira volta do GP da Inglaterra, ocorrido neste domingo. A frase, a qual não recomendo o uso, era “eu avisei”.

Na coluna Pit Stop de 2/06, escrita logo após a corrida em Istambul, Turquia, eu já adiantava que a Red Bull dava claras mostras de inexperiência em gerenciar crises de grande porte. No caso, o desgaste iminente da relação entre Sebastian Vettel e Mark Webber, que naquela corrida sofreram um acidente que poderia ser facilmente evitado; fruto da escolha [prematura] do time do energético pelo jovem alemão. Aos que não se lembram, Webber liderava quando a equipe ordenou pelo rádio que ele “economizasse combustível”. Ao mesmo tempo, mandaram Vettel atacá-lo e ultrapassá-lo, “para fugir das McLarens”. Resultado: Vettel quis passar por cima e Webber não deixou. Batida e dobradinha no colo das McLarens de Lewis Hamilton e Jenson Button.

Duas corridas depois, nos treinos em Silverstone, Inglaterra, a Red Bull apronta mais uma presepada. Levou dois bicos novos para seus pilotos, mas Vettel cometeu um erro e quebrou o seu. Para o treino oficial, a equipe decide tirar o bico novo de Webber e passá-lo ao alemão, que vinha alguns pontos à frente no campeonato. Enfurecido, Webber classifica-se em segundo, a poucos centésimos do pole, Vettel. Na largada, o alemão vai mal, Webber força a passagem, trazendo a McLaren de Hamilton. Vettel tenta fechar a porta na primeira curva, mas é tarde demais: toca o seu pneu traseiro no bico de Hamilton e sofre um furo. Sai da pista, cai para último, mas consegue levar seu carro ao 7º lugar. Webber vence a corrida sem dificuldade alguma, e ainda cutuca a equipe pelo rádio: “nada mal para um segundo piloto, não é?”.

Ironia que virou ataque direto na entrevista coletiva logo após o pódio. Já fechado com a Red Bull para 2011, Mark Webber escancarou: “Eu nunca teria assinado um contrato para o próximo ano se imaginasse que as coisas seguiriam esse caminho”.
Quem é brasileiro e acompanhou a F-1 de perto no início da década já viu esse filme. Quando é que Rubens Barrichello, que outrora vivia derrapando em palavras, disse algo tão incisivo com relação à Ferrari? Claro, reclamava publicamente de sua condição de preterido, mas nunca expôs a scuderia desse jeito - porque era devidamente orientado [ou “intimidado”, como queira].

Em outra histórica situação semelhante, a própria Ferrari já deu o exemplo. Em 1979, seus dois pilotos lutavam pelo campeonato: Jody Scheckter e Gilles Villeneuve. Este último, o tempestuoso e talentoso novato canadense, recebeu um afago do chefão Enzo Ferrari e as seguintes palavras: “este ano, o título é de Jody. O próximo é o seu”. Villeneuve obedeceu: era a aposta de Enzo assim como Vettel é o futuro para a Red Bull. No fim, “il commendatore” estava certo: Villeneuve cometeu erros “evitáveis”, enquanto Scheckter venceu uma temporada muito semelhante a de como se desenha em 2010, com mais de duas equipes na batalha pelo título [Fernando Alonso ainda acredita que chega lá].

Posto isso, seria realmente o caso de apostar cegamente no talento de Vettel em detrimento de um veterano que está claramente veloz e pronto para ser campeão? É óbvio que o alemão é um grande piloto, mas ainda erra muito, é emocionalmente inconstante e ainda está, sim, imaturo para ganhar um título – mesmo com três anos de experiência na F-1. Ao passo que Webber, apesar de sua vivência, não precisa de muito para estourar e criar um clima ruim que contamine todo o time. Suas palavras ao final do GP da Inglaterra são a comprovação disso. Se a Red Bull insistir em dar tratamentos diferentes a seus dois pilotos, vai criar um atrito sem volta, e, imaginem, o título de pilotos e construtores pode muito bem ir embora em um novo acidente envolvendo seus dois carros.

Lewis Hamilton, que parece ter aprendido muito sobre autocontrole nos últimos dois anos, assiste a tudo de camarote e agradece a confusão entre os touros vermelhos [de raiva?]. É mais líder do que nunca deste campeonato de 2010. E é o meu candidato ao título.


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P.S: Para contrabalançar tanto mau humor, o jornalista brasileiro Mike Vlcek, que também é músico, fez uma ótima paródia de "Blackbird", aquela, homenageando o imbróblio rubro-taurino.

11 de julho de 2010



Bons tempos.
Mas os tempos de hoje são bons, também.

24 de junho de 2010



Man you look like old man’s eyes
When I saw you in that room
And now you’re on tour
They booked you in the asylum

You work so hard at being a buffoon
And now you ain’t got no incentive left
You popped your own balloon

You wanted to be somebody
But you ain’t nobody
You ain’t got no body
You’re just a head
You’re just a pothead

I heard one day they said you got so high
You ate up a chicken head and it was still alive
I have some friends who swear you did so don’t deny
Some day you’re gonna get so messed up
You’ll eat the head off your kid
And won’t you be sorry, pothead…

You brag to all your friends
About the fun you had last night
I wonder if you realize you forgot to brush your teeth
And then you’ll come a-bummin’
Asking for some money
You even tried to roll the sacred pages
And you burnt your lip

That lip is has a trench in it
Where that wild weed sits
Sucking like a parasite
Of any sense you might have left

You say that you are happy
And you like stormy weather
Well I think that you’re just dumb
And you don’t know any better

You play your rock and roll guitar
You say you’re gonna be a big star
But everyone in this neighborhood
Knows just who you are

No I ain’t tryin’ to be hard
I don’t mean to be cruel
I’m just tryin’ to say something that’ll shock…
You into going back… to school
Or maybe at least reality
In this year

You wanted to be somebody
But you ain’t nobody
You ain’t got no body
You’re just a head


Gênio.

23 de junho de 2010

África [3]. Minha primeira coluna sobre futebol, no Diário de Taubaté de hoje.

Lembranças latino-americanas
Ou “Pra não dizer que não falei de futebol em tempos de Copa”


Que pelo menos um dos dois levante o caneco

Tenho um amigo, taubateano e filho de argentino, que não se conforma com o fato de eu não me lembrar da Copa de 1986. Gustavo Bernal é 4 anos e meio mais velho do que eu: à época ele tinha 8 anos completos, eu, três e meio. “Mas como assim você não lembra do Maradona?”. Eu me recordo de ter visto o show do Queen ao vivo na Globo, em 1985, e ter perguntado aos meus pais se era meu tio Celso cantando [na época ele tinha um bigode no melhor estilo Freddie Mercury]. Mas não me lembro do Maradona em 1986. Provavelmente porque minha família nunca ligou pra futebol e eu achava mais legal aqueles caras que corriam a 300 km/h; principalmente aqueles dois brasileiros, um de Williams, outro de Lotus – a amarela, ainda.

Em 1990, eu já acompanhava futebol [vai, Corinthians!], mas foi na Copa de 1994 que descobri que gostava de torcer para as seleções menos cotadas. Arábia Saudita, Nigéria [que era novidade], mas, acima de todas, Romênia e Bulgária. A Romênia dos gols espetaculares, de Gheorghe Hagi e Florin Raducioiu, me fisgou na hora. Que futebol era aquele, em que só se metia golaço de fora da área? Fiquei maluco naquele 3x1 contra a Colômbia. Do outro lado, Hristo Stoichkov comandava o que meu amigo Bernal chamava de “grupo de ciganos que se reunia a cada 4 anos pra jogar futebol” por não acreditar na existência física da Bulgária. E o que aqueles “ciganos” jogavam de bola também não era brincadeira. Pra mim, foram duas das três melhores coisas daquele Mundial – só perdendo, claro, para Romário. A Copa era dele, não tinha jeito.

A vida inteira eu torci pelo mais fraco; ao mesmo tempo, sempre achei muito estranho o ódio que o brasileiro em geral sentia por outras seleções latino-americanas. Oras, mas nós todos, do Rio Grande no México até a Terra do Fogo, não somos um bando de desterrados, herdeiros de famílias de pobres e criminosos da Península Ibérica na era Medieval? Um bando de latinos que mora no terreno baldio onde é jogado o lixo cultural e industrial do “primeiro mundo”? Devíamos torcer a favor de nós mesmos, não?

“Ah, mas os paraguaios odeiam de morte os brasileiros”. Pois é. Mas no século XIX, o Brasil, pau-mandado da Inglaterra, ajudou a destruir o Paraguai, então o país mais desenvolvido culturalmente de toda a América. Eles vivem de contrabando até hoje, por nossa causa. Você, no lugar deles, ficaria contente?

Ok, as brigas homéricas das Copas América com o Uruguai; o rojão do goleiro chileno Rojas; o roubo da Copa da Argentina em 1978. Eles também não agiram com um pingo de racionalidade contra nós. Mas eu sinto uma obrigação de torcer pelo colonizado contra o colonizador. Torcer pelo Paraguai contra a Itália, torcer pelo Chile contra a Espanha, torcer pelo México, pelo Uruguai, por Honduras e até, sim senhor, pela Argentina. A rivalidade interna que seja decidida entre nós, os latino-americanos que temos o melhor futebol do mundo desde sempre, com 9 títulos mundiais – e o 10º à caminho: essas duas rodadas já me convenceram que vai dar Brasil x Argentina na final. Sim, o “jogo do século”, os dois melhores futebóis [futebóis?] do mundo se enfrentando e mostrando à Europa quem é que manda nessa bodega.

Apesar da ascendência, nem Bernal nem o “Seu” Carlão [o pai, nascido na Argentina] torcem fervorosamente pelos hermanos. “Seu” Carlão, inclusive, odeia o Maradona – mas, claro, vibrou na Copa de 1986. Provavelmente eu teria vibrado também, se tivesse visto. Certa vez, disse ao Bernal que não me lembrava de Don Diego, mas lembrava do Teo Fabi. “Caaara! Como assim você lembra do Teo Fabi?” Pois é. Como já dizia o poeta, “a memória é uma velha louca que joga comida fora e guarda trapos coloridos”.

Que esta Copa da África nos dê muito o que guardar de bom.

17 de junho de 2010

HD freaks. Porque tudo fica mais bonito com time lapse, tilt shift e trilhas sonoras adequadas.

Eyjafjallajökull - May 1st and 2nd, 2010 from Sean Stiegemeier on Vimeo


Hayaku: A Time Lapse Journey Through Japan from Brad Kremer on Vimeo

Ambos via Léo Ferreira.

15 de junho de 2010

Africa [2]. Tá putinho com as vuvuzelas? Pois ok, direito teu. Também acho chato aquele som de mosca varejeira. Mas saiba que aquilo é uma expressão de alegria do torcedor africano. Uma maneira ruidosa de dizer que eles estão felizes pra caralho com a Copa Do Mundo.


Vocês nem sabem o que vos aguarda em matéria de vergonha alheia nas Olimpíadas do Rio, isso sim.

Só pra lembrar o que aconteceu no Panamericano do Rio em 2007:

A torcida não poupou quase nenhum estrangeiro. Os alvos prediletos foram norte-americanos e argentinos, mas todo atleta que estivesse competindo contra um brasileiro acabava vaiado. Mesmo em esportes em que pede-se silêncio dos espectadores, como tênis, ginástica, ou hipismo, os competidores de outros países sofreram. Até mesmo para brasileiros, como no caso do futsal, que acabou com a medalha de ouro, houve vaias pela "falta de espetáculo".
- Folha Online, 30/07/2007

[...] o campeão do decatlo, Maurice Smith, da Jamaica, e o americano Chris Boyles, sexto colocado, também reclamaram dos torcedores, que vaiaram os estrangeiros durante suas apresentações. Ivan afirmou ter sentido vergonha do comportamento da arquibancada. "Fiquei muito mal. Posso dizer que um pouco do meu resultado ruim foi por causa disso. Achei falta de educação do público. No atletismo a gente não tem isso, de vaiar. Foi terrível. O Brasil nunca mais vai trazer uma competição importante. O principal é espírito olímpico e isso não é espírito olímpico. Se quiser trazer Olimpíadas, o Brasil vai ter que mudar a cultura do povo, e isso é muito difícil", opinou.
- O Globo, 24/07/2007

[...] medalha de ouro de Fabiana Murer, no salto com vara. Nesta prova as adversárias da brasileira também sofreram com as vaias da torcida. Modalidade altamente técnica, as atletas perderam a concentração e se prejudicaram.
- Blog da Ana Moser, 23/07/2007

E nada indica que o comportamento do torcedor brasileiro vá mudar até 2016.

Vuvuzelar de alegria, vaiar de desprezo.

Povinho de merda, somos.


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P.S: Entretanto, este blog se manifesta terminantemente a favor das matracas dinamarquesas. Fazem um barulho muito bonito.

10 de junho de 2010

Africa [1]. Sim, me gusta música negra. E quanto mais roots, melhor.



Já comecei a fuçar a vida deles por este disco e não me arrependi.

9 de junho de 2010


Depois de sete anos, algumas mudanças na formação e muitos shows (históricos, diga-se de passagem) na bagagem, o Seamus lança seu primeiro disco, “Sounds Of The City You Love”. Músicas que já se tornaram clássicas no meio independente, afinal, quem acompanha a banda já conhece esse material há tempos, em seu estado mais puro e sincero. Marcas registradas desses quatro garotos, um pouco de Taubaté com pitadas de Pindamonhangaba, região do Vale do Paraíba, interior de São Paulo.

Com músicas criadas entre os anos de 2003 e 2006, o disco foi produzido ao longo de angustiantes e ansiosos sete anos. O trabalho todo ficou nas mãos dos quatros integrantes, que despejaram em nove canções seus sentimentos do cotidiano, as crises, amores, tristezas. Enfim, do que é feito o rock. E mais: sem querer parecer com ninguém, apenas do que são feitos.


Trecho do amável release de Paulo Borgia sobre o Seamus no blog Outros Críticos. Lá também está o link para o download gratuito do álbum. A gente nem queria fazer isso, mas foi só pra irritar o Rick Bonadio. Ou dar razão a ele, talvez. [Aliás, é sério que o Vírgula tirou aquela entrevista do ar? Por quê?]

P.S: A senha do arquivo é "outroscriticos". É sem acento.

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Uma coisa legal que eu acabei esquecendo de postar aqui foi a matéria que o pessoal do [infelizmente] finado programa de rádio SPFM [São Paulo Music Factory] fez sobre o já longínquo 1º Festival na Montanha em 2009, organizado pelo pessoal do The Vain e pela Prefeitura de Santo Antônio do Pinhal. No dia que tocamos, também se apresentaram nada menos que Pale Sunday, La Carne, Holger, o próprio The Vain [tudo de graça na praça] e o Black Drawing Chalks, este numa polêêêmica festa separada. No vídeo, coincidentemente, dissemos que havíamos "acabado de terminar o disco". Mentira. Achamos um monte de problemas que só conseguimos resolver três meses depois.



E é tudo o que tenho a dizer sobre isso.

8 de junho de 2010

Uma comparação maluca. Eu tenho essa tara por coisas esquisitas como ekranoplanos. Planejados para aposentar os navios, eles eram gigantescos, corriam a quase 500 km/h e tinham tudo para dominar o mundo. Eis o maior e mais fantástico deles, o russão Caspian Sea Monster.



Como você pode facilmente perceber nos últimos 40 anos, eles não foram adotados. Por motivos óbvios: imagina uma porra dessa em alto oceano, com o mar revolto.

Ekranoplanos me lembram rock progressivo.

Eu amo rock progressivo muito mais do que amo ekranoplanos.



Ver o King Crimson tocar é tão legal quanto ver um Ekranoplano voar a um metro da água. É a expectativa, o estranho, o inesperado.

Mas ekranoplanos não são aviões e rock progressivo não é rock.

Um é apenas veículo e o outro é apenas música.

Quase pelo mesmo motivo, estão mortos. São sandices de mentes malucas que um dia pensaram ter reinventado a roda.

Mas sempre há saudosistas pra tudo.

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P.S: Quem tiver um link bacana para o vídeo completo do fragmento abaixo ganha minha gratidão eterna. E umas cervejas no bar.

2 de junho de 2010

[Coluna de hoje no Diário de Taubaté]

Maturidade para o título
Não é nada, não é nada, o caneco de 2010 pode sobrar para a McLaren


Vettel abandona GP da Turquia após bater em Webber: erros em série podem tirar título dele e da Red Bull

Antes que o amigo leitor me acuse de ser corneteiro, eu poupo o trabalho: sim, eu sou um corneteiro convicto. Acho Sebastian Vettel um excelente piloto, mas sempre me pareceu superestimado demais. Ganhou sua primeira corrida numa Toro Rosso? Sim, mas na chuva e em Monza – e se você já jogou Formula 1 no videogame, Monza sempre foi o segundo circuito mais fácil, só perdendo para as longas retas do velho Hockenheim. Sem falar que, em 2008, o projeto do carro do “time B” da Red Bull era bem semelhante ao do “time A”.

Mais: desde 2009, nas 24 corridas em que o alemão de 22 anos teve um carro inegavelmente vencedor, seu desempenho não é tão superior ao de Mark Webber – que, convenhamos, em 9 anos na F-1, não fez muita coisa. A fase do australiano é muito boa – líder do campeonato, com duas vitórias e três poles em três corridas, mas será que ela vai durar? Não, não vai, porque nem o time dos energéticos quer assim. Basta ver o que aconteceu no GP da Turquia: uma ordem de equipe maquiada, malcomunicada e mal-executada, que pode abrir um racha definitivo e a perda do rumo para um campeonato que parecia certo.

Pois veja: disseram a Webber para “economizar combustível” e “ordenaram” a Vettel que “ultrapassasse Webber para se livrar da pressão de Lewis Hamilton”, que vinha babando em terceiro. Só que Webber não se sentiu em momento algum obrigado a ceder a liderança. Resultado: tentativa de ultrapassagem atabalhoada de Vettel, resistência de Webber e a inevitável batida entre os dois. Deixaram a dobradinha no colo da McLaren. Por culpa muito mais da “ordem” da equipe do que de sua manobra, o jovem alemão deixou de marcar, na pior das hipóteses, os 12 pontos do quarto lugar. Vai fazer uma baita diferença lá na frente.

Para completar a zica, o velocíssimo RB6 enfrenta problemas de confiabilidade que ainda não foram totalmente sanados. E nenhum carro velocíssimo ganha título se não chegar no final da corrida ou se quebra no treino. Desta vez, Vettel perdeu a pole na Turquia por conta de uma barra estabilizadora quebrada no final do Q3.

De favorita absoluta ao título de pilotos e construtores, a Red Bull pode estar começando a entregar o ouro para a McLaren, que vem fazendo tudo certinho. Lewis Hamilton e Jenson Button têm um carro veloz, e provaram na mesma corrida da Turquia que podem se resolver de maneira limpa e esplendorosa, como na briga que empreenderam pela liderança: uma briga de vácuo, tomadas de curva e trocas de posição por quase meia volta. Afinal, são dois campeões do mundo em um time que já venceu 12 vezes o campeonato de pilotos e oito vezes o de construtores. Acho que eles entendem de ganhar título...

Ferrari renovará com Massa para 2011
Depois de intensas especulações da imprensa européia, que colocavam Mark Webber e Robert Kubica como companheiros de equipe de Fernando Alonso para o próximo ano, o site Tazio [http://www.tazio.com.br] cravou nesta terça: a Ferrari anunciará a renovação de contrato com Felipe Massa ainda nesta semana. O assessor de imprensa da equipe, Luca Colajanni, virá ao Brasil especialmente para fazer o comunicado. Dada a fase da Ferrari, que penou na Turquia para não ser superada até pela Renault, eram mais animadores os boatos que colocavam Felipe na Red Bull...

Indy 500 cortada
Inacreditável a cara-de-pau da Rede Bandeirantes de Televisão em interromper a transmissão da “mais tradicional prova do automobilismo mundial” [como eles mesmos propalaram nas chamadas para a corrida], na qual dois brasileiros tinham chances claras de vitória [Hélio Castroneves e Tony Kanaan] para transmitir um insosso jogo entre Guarani x São Paulo, válido pelo Brasileirão. Enquanto a corrida pegava fogo, a partida ficava no 0x0 – e não foi além. Desrespeito com todos os fãs de esportes; ainda mais doído quando lembro que vem de uma emissora que educou toda uma geração, nos anos 80 e 90, com o seu saudoso e fantástico “Show do Esporte” aos domingos. Fica a saudade dos tempos em que a referida emissora fazia uma cobertura esportiva mais séria.

1 de junho de 2010

[Coluna de junho na Revista Vitti]

A hipocrisia também é sustentável
O esporte a motor, que não tem nada a ver com a degradação ambiental do mundo, está na mira na ditadura do politicamente correto


Todo o combustível utilizado na F-1 durante o ano
cabe num tanque de um Airbus - e sobra espaço

Sustentabilidade é a palavra da moda já há alguns anos. Não há dia que os amigos leitores não se deparem com campanhas pedindo para que nós “salvemos o mundo”, “conservemos a natureza”, etc. O policiamento é forte e qualquer opinião pode ser usada contra o seu portador nos tribunais – por isso mesmo, vou pegar leve ao me expressar sobre o assunto, mas adianto que estou com o polêmico George Carlin, filósofo americano morto em 2008, que criticava sem dó a ineficiência de certas atitudes que são melhores para limpar nossas consciências do que limpar nossos rios.

Pois os esportes a motor – mais especificamente as categorias Top como a Formula 1 – estão na mira da opinião púbica “ecochata” de plantão: a velha crise de consciência do mundo industrializado. Se no pós-guerra o automobilismo era desmerecido como esporte, agora é a vez de criticá-lo pela gastança fútil de dinheiro em um evento que reúne máquinas que poluem o ar ao queimar combustível fóssil, sem trazer dividendo nenhum para a sociedade além do deleite da competição pura e irracional. É bom lembrar que essa foi uma das inúmeras desculpas da BMW para a decisão de deixar a F-1 no final do ano passado: foi também uma decisão de marketing para manter a imagem da montadora alinhada a projetos “verdes”, que combatam o aquecimento global – e não com essa brincadeira irresponsável de engenheiros nerds e pilotos malucos. Os patrocinadores começam a pensar igual, igualmente motivados pela ação de limpeza de sua imagem: “fazemos a nossa parte por um mundo melhor”.

Na mudança dos motores da Formula 1 prevista para 2013, há a pressão das montadoras para que eles sejam mais parecidos com os que os carros de rua devem usar no futuro: 1.6 V6 com turbo, gerando por volta dos 600 cv [contra os quase 780 cv dos motores 2.4 V8 utilizados atualmente], e com a volta do polêmico KERS, agora no formato de um motor híbrido para ser usado nos instantes de baixa velocidade. Mudanças estas que, efetivamente, não vão alterar em nada o impacto ambiental dos Grandes Prêmios – se essa era a preocupação –, muito menos gerará soluções mágicas para os automóveis de rua.

O que nenhum dos ecochatos fez foi parar para fazer a conta de o quanto realmente uma categoria como a Formula 1 seria prejudicial e inadequada para o momento que o mundo vive. Pegue sua calculadora com bateria movida a energia solar e vamos lá: são 19 corridas, nas quais 24 carros gastam [chutando] 300 litros de gasolina cada no final de semana. Contando também os testes, isso dá um total de, mais ou menos, 160 mil litros de combustível gastos por ano. O que dá pouco mais que a metade da capacidade do tanque de um [UM] avião Airbus A380, que faz voos intercontinentais todos os dias entre América, Europa e Ásia. Seu tanque comporta nada menos que 310 mil litros de querosene de aviação.

A metralhadora do politicamente correto está tão fora do alvo que há outro dado interessante, também relacionado à aviação: por dia, só na Europa, mais de 300 mil toneladas de dióxido de carbono [CO2] são despejadas no ar por aviões. Quando o vulcão islandês Eyjafjallajokull entrou em erupção no final de março, soltou, em média, “apenas” 15 mil toneladas de CO2 por dia, ao mesmo tempo que cancelou 60% dos voos enquanto esteve em atividade. Faça as contas de quanto gás carbônico o vulcão impediu que fosse jogado na atmosfera.

Impedir a influência do ser humano no clima do planeta passa por uma questão de completa [e dolorosa] reforma estrutural, tanto política quanto econômica e social; algo menos que isso não passa de uma medida de limpeza pública. Fazer um Formula 1 gastar menos combustível – ou deixar de usar saquinhos plásticos no supermercado – não é nada comparado à insistência em modelos altamente ineficientes de produção, ao caos da individualização do transporte, à preguiça e medo de se construir um novo modelo de sobrevivência do zero, deixando certos luxos e vaidades para trás. O automobilismo é apenas um esporte e o esporte é apenas entretenimento. E precisamos de entretenimento para encarar esse mundo que, como bem disse minha avó, indignada com uma insossa margarina light, está ficando chato demais.

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Sim, eu sei que perdi de fazer uma ironia citando a Lauda Air. Mal aí.

5 de abril de 2010



'Cause love's such an old fashioned word
And love dares you to care for
The people on the edge of the night
And love dares you to change our way of
Caring about ourselves
This is our last dance
This is ourselves
Under pressure
Under pressure
Pressure

24 de março de 2010

[Coluna Pit Stop de hoje no Diário de Taubaté]

Do que é feito um ídolo?
Ayrton Senna, Alessandro Zanardi e um domingo que uniu dois esportistas fantásticos

Graças às comemorações do aniversário póstumo [existe isso?] de 50 anos de Ayrton Senna, mais uma vez as velhas celeumas babacas sobre sua superioridade no esporte foram levantadas. Senna versus Schumacher, Senna versus Piquet, Senna versus Prost: todas essas discussões infundadas e inconclusivas, motivadas exclusivamente pela simpatia e antipatia exageradas à mitificação da imagem do “aniversariante”.

Senna foi o piloto mais completo a dirigir um carro de Formula 1 depois de Fangio e antes de Schumacher. Mas só de pensar nos argumentos com que é defendido pelos chamados “sennistas” já sinto meu estômago embrulhar. É sempre o seu patriotismo, sempre os seus projetos sociais, sempre sua ética vestal, e por aí vai. Simplesmente se esquecem do Ayrton-Piloto, que era tão esportista e mortal quanto os outros 25 no grid. E qual era a sua diferença pro resto? Garra e empenho descomunal em superar seus próprios limites. Apenas isso – e nada mais – o fez ser tricampeão mundial de Formula 1 em cima de uma das maiores safras de talentos da história do automobilismo. Fora isso, Senna vetou companheiros de equipe, jogou carros pra cima de Prost e Mansell, mandou Piquet às favas, agrediu Irvine, apontou dedo na cara de Schumacher, entre outros deslizes. Era um ser humano, afinal, que era fantástico quando sentava num carro de corrida.

Neste 21 de março de lembranças que se passou, um outro piloto bem menos laureado que Senna, mas tão obstinado quanto, celebrou sua primeira vitória em três rodas. O italiano Alessandro Zanardi venceu a Maratona de Roma em uma das categorias paraolímpicas – e já sonha alto com a medalha nas Paraolimpíadas de Londres em 2012. Zanardi, para quem não se lembra, perdeu as pernas em 2001 num horrendo acidente no oval de Lausitzring, na Alemanha, quando corria na Formula Indy/CART.

Zanardi nunca foi o melhor piloto do mundo. Não fosse pelo bi-campeonato da Formula Indy/CART, o italiano seria mais um daqueles nomes lembrados apenas pelos fãs de “pilotos alternativos” – por "alternativo" entenda-se feras obscuras como Olivier Beretta, Luis Perez Sala ou Jean-Denis Délétraz. Passou pela Jordan em 1991; no ano seguinte foi para a Lotus e lá colecionou quebras, acidentes e frustrações até o final de 1994. Mudou-se para a Indy/CART e teve a sorte de cair justamente na melhor equipe do momento, a Ganassi. O italiano assistiu seu companheiro Jimmy Vasser ganhar o campeonato de 1996 e levou os dois canecos seguintes. Foi quando tentou voltar à Formula 1 pela Williams, mas foi amplamente superado por Ralf Schumacher. Demitido, retornou à Indy/CART, mas, em outra equipe, não repetiu o desempenho da época da Ganassi. E em 2001 veio o acidente. Atravessou a pista e foi abalroado por Alex Tagliani a mais de 300 km/h. Em nenhum momento a televisão focou o resgate do piloto italiano, tal o horror das imagens.

Mesmo sem as duas pernas – e como se simplesmente não fizessem diferença alguma – Zanardi voltou a correr em 2004. Em um carro adaptado, disputou o Campeonato Europeu e depois o Mundial de Turismo [WTCC] pela BMW. Ganhou algumas corridas: parecia até estar pilotando melhor do que antes. A parceria durou até o final de 2009, quando a BMW reduziu o número de carros no WTCC e demitiu o italiano. Se não teve um carro para correr nas pistas este ano, pegou um triciclo especial e foi disputar maratonas paraolímpicas. Simples assim.

Não é só o amor pelo esporte. Não é só a gana pela superação. O que faz de Zanardi um esportista tão admirável quanto os grandes campeões é um entendimento de mundo muito maior que qualquer um de nós sonha um dia em ter. Algo que fez dele uma das figuras mais queridas no automobilismo moderno. Ele não tem vergonha de sua deficiência. Tem um acordo franco com a vida, de [se] aceitar e seguir em frente. Em seu site oficial, Zanardi mantém uma seção chamada “Humor”, dedicada somente às charges da revista italiana AutoSprint, nas quais foi “homenageado” antes e depois do acidente. Quantos outros esportistas bem menos sofridos sabem rir de si mesmos desse jeito?

Com uma possível medalha olímpica no peito, talvez só falte a Zanardi empunhar umas bandeiras por aí para se tornar um ídolo completo.

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Caso você queira ver o que a televisão alemã não mostrou, clique aqui e aqui. Mas eu não recomendo.

19 de março de 2010

[Coluna Pit Stop desta semana no Diário de Taubaté]

Ayrton Senna, 50
Como seria a vida do maior piloto brasileiro se ele estivesse vivo para completar meio século de vida.

“Ele é maluco”, dizia. Do alto de seu refúgio em Angra dos Reis, Ayrton vibrava com a volta de Michael Schumacher às pistas. Assistiu o Grande Prêmio do Bahrein com um copo de suco de laranja na mão direita. Toda vez que aparecia a câmera onboard da Mercedes do “alemão de outro mundo”, levantava o punho esquerdo semicerrado, como se segurasse um volante, e mexia os pés, acelerando e freando imaginariamente. A admiração tem um fundo de gratidão. Quando se aposentou com o tetracampeonato, em 96, Senna declarou que só havia continuado a competir depois do acidente em Ímola porque encontrou um novo rival. Alain Prost havia deixado as pistas e Ayrton perdera sua referência.

Senna não conseguia pilotar naturalmente depois de encarar a morte de perto. Voltou ainda em 1994 para os três últimos GPs, mas estava irreconhecível. Não conseguia sequer superar seu companheiro de equipe, Damon Hill. Foram meses se recuperando de um traumatismo craniano – não havia sequelas, mas a especulação da imprensa nunca o deixava em paz. Tinha que aguentar as comparações com Piquet, que também tinha batido na Tamburello sete anos antes, e ficado, segundo o próprio, 1 segundo mais lento. Senna pensava todo dia em se aposentar.

Em 1995, no entanto, ressurgiu mais forte. Schumacher fez uma atuação soberba e levou o campeonato; Ayrton queria fazer os críticos engolirem suas palavras e sabia, agora, a quem [e o que] tinha que derrotar para renascer. Havia encontrado motivação. Com quatro vitórias – pouco para ele – alguns ainda duvidavam de sua capacidade. Mas no ano seguinte, a Williams acertou no foguete FW-18 e Schumacher ainda engatinhava na Ferrari. Resultado: Senna absoluto. Treze vitórias, doze poles, quinze pódios em 16 corridas. Avassalador. Sua despedida em Suzuka foi numa atuação de gala. Venceu; chorou copiosamente no pódio, abraçado ao amigo Gerhard Berger, que chegara em terceiro. O mito se retirava no auge, como sempre sonhou.

Desde então, foi se afastando do mundo do esporte aos poucos. Foi aos GPs do Brasil para rever os velhos amigos, mas a Formula 1 ficava cada dia mais chata, burocrática. Contentou-se em ver as corridas pela televisão. Foi convidado para correr na Formula Indy, disputar o Mundial de Rali, mas nada o atraiu mais que sua mansão a beira-mar em Angra. Sequer se envolveu com as negociações de seu sobrinho, Bruno, com a Campos/Hispania ou qualquer outro time.

Em 2010, separado há dez anos da ex-mulher, a apresentadora Adriane Galisteu, com quem teve um filho [João Manuel], Ayrton é uma figura reclusa. Dedicado à manutenção de suas empresas e obras sociais, se mantém longe de badalações e da mídia – mas é figura fácil no Criança Esperança, ao lado de Renato Aragão. Raramente dá entrevistas, mas quando fala, geralmente é mal-interpretado – como no escândalo de Cingapura: declarou que o filho do ex-rival Nelson Piquet “não tinha herdado o que o pai tinha de melhor: o brio”. Senna, ali, percebeu que o afastamento havia sido a escolha certa.

No seu aniversário de 50 anos, 21 de março de 2010, não tinha corrida na televisão. Senna levantou cedo e foi passear de barco. Pediu que anotassem qualquer recado que chegasse pelo telefone – ainda que pouquíssima gente soubesse qual o telefone de sua casa em Angra. Só voltou no fim da tarde, para receber os cumprimentos da família, que o esperara em terra o dia todo. Pai, mãe, irmãos e filho de Senna reuniram os caseiros e fizeram uma modesta festa surpresa, com bolo, alguns salgadinhos e cervejas. Não havia pilotos nem celebridades – respeitavam a calma que havia escolhido pra si.

A festa se estendeu até o fim da noite. Assim que seus pais foram dormir, Senna também se despediu. Disse que tinha uns papéis para cuidar antes de dormir – era verdade. Leu, avaliou, assinou, guardou tudo numa pasta. Apagou a luz do escritório, entrou em seu quarto e se deitou. Ouviu as risadas da pequena festa que ainda continuava e dormiu um breve sorriso no canto do rosto.

14 de março de 2010

Toda vez que eu tomo banho eu me sinto mais sujo, porque lembro que a água vai para o Tietê - e vou cheirá-la de novo amanhã, quando passar pela ponte indo trabalhar.

- Gomez, baixista do Vincebuz e morador de São Paulo.

28 de fevereiro de 2010


Sra. Meteoro segura o rebento

É isso mesmo. Depois de 04 anos e 14 dias de muita batalha, eis que Sounds Of The City You Love, primeiro disco do Seamus, ficou pronto. Fizemos dois shows no final de semana [Divina Comédia/Mogi e Hocus Pocus/SJC] e já vendemos algumas cópias a pessoas de confiança. Felicidade é pouco pra descrever.

22 de fevereiro de 2010

[Matéria escrita no longínquo mês de outubro de 2009 sob honorável pedido de amigos - e que seria publicada num site sobre música BEM bacana. Mas, por motivo incerto, não rolou. Publico aqui mesmo.]

O Hierofante & A Cidade
Entre o caos da capital e dilemas pessoais, o Hierofante Púrpura planeja a turnê para divulgar Crize de Creize, seu novo EP

“Vamos todos agilizar pra sairmos daqui, no máximo, às 18h”. São quase 17h e Danilo Sevali [baixo, piano e vocais] está preocupado com o trânsito caótico do centro de São Paulo. O destino é o palco do CICAS [Centro Integrado de Cultura Alternativa e Social], localizado na extrema zona norte de São Paulo. Lá, o Hierofante Púrpura estreará sua terceira formação diferente em menos de 9 meses. Dali a apenas três horas.

Danilo se sente angustiado na capital; está exilado da cidade-natal Mogi Das Cruzes por motivos de trabalho. É cinegrafista e não agüenta mais “trabalhar com jornalistas estrelinhas”. Foi o mesmo descontentamento com a rotina que levou os outros dois terços da banda, Gabriel Lima [guitarra] e Diogo Menichelli [bateria e co-letrista], a sair de casa rumo à Irlanda, em janeiro – deixando para trás a banda que criaram, inclusive. Danilo ficou no Brasil, sozinho num pequeno apartamento próximo à agitada Av. Consolação, no qual suas únicas companhias são a vaca da capa do Atom Heart Mother do Pink Floyd, uma viola de 10 cordas e dois LPs ouvidos incessantemente: o Westing [By Musket and Sextant] do Pavement e Gal, disco da Gal Costa de 1969.

Não por coincidência, o som do Hierofante Púrpura exala a influência do lo-fi de Stephen Malkmus & Cia pintado com várias cores do rock psicodélico brasileiro do final dos anos 60 e início dos anos 70 [o nome da banda, inclusive, vem da canção “O Hierofante“ dos Secos E Molhados]. Entre a nuvem de dedilhados e distorções espertas da Telecaster de Gabriel e a levada mansa – ao mesmo tempo que forte e segura – da bateria de Diogo, as letras brincam inconscientemente com a percepção de tempo e espaço, cantadas por um vocal rasgado e marcante. Há um sentimento de inadequação e busca, que permeia músicas cujas melodias quase nunca repetem as mesmas partes: dificilmente há o esquema “introdução-verso-refrão-verso-refrão-solo-refrão-final”. Aquela agradável sensação de curiosidade em não saber para onde a música está nos levando. Mas isso não quer dizer que o trio seja adepto da virtuose: vide a segunda canção do EP Adubado, “Não Conte A Ninguém Ou Eu Mato Você”: uma montanha-russa de melodias ao piano que podem ser simplificadas no violão a apenas DOIS acordes.

A subida da Av. Consolação está particularmente engarrafada. O som do carro toca Adubado pela terceira ou quarta vez; Luis Naressi [que substituiria Gabriel naquela noite] não está muito seguro sobre alguns trechos das músicas e as ouve repetidamente. Ele queria seguir exatamente as linhas de guitarra que Gabriel havia inicialmente feito. O outro substituto, Sérgio Ugeda [Debate, ex-Diagonal], que tem acompanhado o Hierofante desde junho, recriou a maioria das melodias ao seu estilo; mas viaja a trabalho nesta noite de sábado. O substituto das baquetas, Hugo Falcão [ex-Ludovic, ex-Shed], tem horários mais ortodoxos em seu emprego formal. Está nos esperando na Bela Vista.

“Ô, fera!”, sorri Hugo ao emparelharmos o carro, fazendo pouco caso do trânsito infernal e do atraso no horário. Além de baterista, Hugo também é o dono do estúdio Machine Action, onde o Hierofante Púrpura gravou 12 músicas em 2008; mas a banda, ao invés de lançá-las como um álbum inteiro, dividiu as canções em três EPs.

“Não lançamos [o álbum inteiro] por pura opção. Decidimos que o formato EP era algo mais imediato, mais urgente”, explica Danilo entre as indicações do caminho a seguir pela Av. Paulista. O sucessor do Adubado e segundo EP do ano, Crise de Creize, também pertence a essa leva. O preço do disquinho? Seu endereço de e-mail. “Trocamos o EP pelo o e-mail do interessado, criando assim um mailing. É pra fazer nascer um vínculo com o público, de show em show, de EP em EP distribuído...”.

No engarrafamento da Marginal Tietê, Danilo observa o rosto de Luis ser iluminado pelas luzes da viatura policial à frente. Ele saca da mochila uma velha câmera VHS e registra a cena. “Minha velha fixação por posteridades”, ri. A câmera de Danilo é quase um de seus instrumentos musicais. Ele filma [ou melhor, pede para alguém da platéia filmar] todos os shows do Hierofante Púrpura, e alguns acabam virando pequenos documentários no You Tube [procure pela conta “danilosevali”]. Mas não pensem em nada jornalisticamente formatado: a edição pouco ortodoxa desses vídeos se importa muito mais com a estética que o VHS proporciona – bastante característica, diga-se. Fixação por posteridades e baixas tecnologias.

“Bóra rufar?”, pergunta Hugo ao chegarmos na Zona Norte. [O verbo “rufar” é uma das gírias peculiares do baterista, que acabou até gravada pelo próprio “autor” em uma das músicas do novo EP]. O CICAS é um centro comunitário de cultura instalado em um galpão abandonado, em frente à COHAB Vila Sabrina. O centro abriga oficinas de arte e shows pela iniciativa de jovens da região e do coletivo Sinfonia de Cães. O local vive cheio de crianças atraídas pelo material de desenho à disposição e pela atenção que os “tios” de vinte-e-poucos-anos dispensam para desde ensinar-lhes violão até brincar de pega-pega entre uma banda e outra. Acostumada com os mimos, a molecada chama pelos “tios” que estão bem no meio de um show. Para entretê-las, Danilo acha uma solução simpática: promove um concurso de dança em “Sujeito Sem Brio”, canção do Adubado. Cinco ou seis crianças ficam à beira do palco, dançando e sorrindo, felizes da vida. Não há a necessidade de se apontar vencedores.

O show do Hierofante Púrpura dura quinze minutos. Apenas três músicas. Já passava das 21h e mais duas bandas, Monochrome TV e Água Pesada, tocariam naquela noite antes das 22h. Luis Naressi pergunta se o som estava bom para o público. Hugo e Danilo pareciam menos preocupados, relaxados apenas por conseguirem tocar depois de tanta correria.

O carro volta lotado com equipamentos do show. Quase uma hora no trânsito é mais que suficiente para que os cinco ocupantes se lamentem do desconforto pela falta de espaço. Danilo: “É por isso que eu vou comprar uma Kombi mês que vem”. Risos dentro do carro. “Vai ser nosso quarto integrante”, ele retruca. Danilo falava sério sobre seus planos. Quer pegar a estrada e não parar de tocar um momento sequer para a divulgação do Crise de Creize. Ainda que a faixa inicial do EP seja sintomática das angústias que carregam seus integrantes originais, Danilo, Gabriel e Diogo, por deixarem Mogi das Cruzes: “como falta luz nesse lugar/ abre a porta, mãe/ e dai-me, dai-me, dai-me/ guardo em mim”. Nome da música: “Casa”. O único lugar que todos desejavam de alguma forma ao fim daquela noite, onde quer que estivessem.

17 de fevereiro de 2010

[Coluna Pit Stop de amanhã no Diário de Taubaté]

Os Piratas da Sérvia
Stefan GP quer pilhar a vaga de uma das equipes novatas da Formula 1


Stefanovic [primeiro à esq.] e engenheiros da Stefan GP:
piratas que não se parecem muito com os de antigamente

Quase todo o circo da Formula 1 está armado em Jerez de La Frontera para os testes de pré-temporada. Quase todo. Das 13 equipes esperadas para o grid, duas ainda não apresentaram seus carros, sequer têm a dupla de pilotos confirmada para a temporada. USF1 e Campos são duas incógnitas no grid e há quem diga que a chance de algumas delas alinhar na primeira etapa no Bahrein é zero.

A Campos contava com o nome [ou melhor, o sobrenome] de Bruno Senna para alavancar suas cotas de patrocínio. O projeto do ex-piloto Adrian Campos é sério, mas virou vítima dos ecos que ainda persistem da crise econômica mundial de 2008. Veio ao Brasil com Bruno a tiracolo para apresentar suas intenções, mas nenhuma grande empresa se comoveu. Resultado: Adrian deve até as calças à Dallara, empresa tradicional contratada para fabricar seus carros, e não tem como quitar a dívida sem a ajuda de um forte investidor.

A USF1 está em terreno ainda mais incerto. No final de dezembro, a primeira equipe puramente americana na Formula 1 moderna soltou um vídeo que mostrava a fabricação de parte de um chassi de monoposto. E só. Exceto pela contratação do argentino José Maria López, não se soube de mais nada a respeito da equipe, esportivamente falando. Declararam que esse era o jeito deles, “trabalhar em silêncio”. Pois é, o silêncio foi tanto que o senhorio achou que o imóvel estava desocupado: o prédio alugado pela USF1 para sediar sua fábrica foi posto à venda nesta semana. Além disso, nesta quarta o investidor principal da equipe, o empresário Chad Hurley, tirou de sua página no Twitter a menção que fazia à equipe.

Rindo da má-sorte dos outros está o empresário sérvio Zoran Stefanovic, dono da Stefan GP. Mesmo reprovada no “vestibular” que a FIA fez para escolher as novas equipes da Formula 1, a Stefan GP comprou os projetos da falecida Toyota e está construindo dois carros mesmo sem vaga garantida no grid. Mais: a equipe já mandou para o Bahrein contêineres com equipamento para disputar o Grande Prêmio. Antes, reservaram o autódromo de Portimão, em Portugal, para testar o seu carro, o S-01, entre 25 e 28 de fevereiro.

Dinheiro não é problema para Stefanovic: ele é executivo da AMCO, empresa sérvia de engenharia que atua em diversas áreas, inclusive no programa espacial da União Européia. Como se já não bastasse, sites europeus dão conta que o governo sérvio entraria com nada menos que € 95 milhões para ajudar a Stefan GP a decolar. Pilotos? Kazuki Nakajima, de forte ligação com a Toyota, é nome certo. Para o segundo carro, especula-se o indiano Karun Chandok, que teria mais € 6 milhõezinhos para o “intéra” do orçamento. Troquinho de pinga.

Stefanovic reclamou para Deus e o mundo que sua equipe fora rejeitada inicialmente só porque não queria trabalhar com os motores Cosworth – o que é verdade. Sua aparente vingança é mostrar ao mundo a iniciativa [ou eu deveria dizer “cara-de-pau”?] que falta aos times estreantes que a FIA bancou e que até agora não mostraram nada de concreto [exceções feitas à Virgin e Lotus que, coincidência ou não, também têm grandes empresas por trás e já estão queimando borracha na pista].

Aspas para Bernie Ecclestone, dono do circo da Formula 1, falando ao jornal alemão Sport Bild: “Eu não acredito na participação da USF1 e Campos. Em vez disso, eu tenho um bom contato com a Stefan e estou tentando conseguir para este time uma vaga”. A esta altura, Tio Bernie já deve ter entregado o mapa do tesouro na mão dos piratas sérvios, que não vão nem mesmo precisar afundar qualquer barco inimigo para chegar lá.